Dentro da mansão Walzen, o frio permanecia isolado lá fora enquanto as lareiras crepitavam discretamente. Emma refazia as malas para o último período de Hogwarts quando se deu conta de que seu amigo David devia ter voltado de viagem e poderia estar ali na região, visto que os Fudge moravam a três quilômetros e meio de distância do casarão; levantou-se do chão e dirigiu-se a algumas saletas onde supôs que encontraria sua mãe, que certamente saberia dos Fudge. Nada.
Com um pouco de pressa - já havia passado o almoço - ela chegou ao salão de descanso, e mais uma vez se viu sozinha. Por hábito, deu uma espiadela nos campos brancos lá fora, cobertos de neve, avistou algumas das estufas protegidas do inverno (através de mágica) e - pasmem - dois pontos escuros distintos caminhando na direção oposta da mansão. Emma abriu um pouco mais os olhos, e tentou aproximar-se mais da janela para visualizar melhor o par de sujeitos que ia, insanamente, através da neve, para o esmo do vale à frente. Reparando com mais atenção, ela pôde perceber que um dos sujeitos usava uma longa capa de um roxo vivo, e um capuz comprido que descia quase até os pés. Quando a figura se virou, notou que esta tinha uma longa barba branca, que quase se confundia com a própria neve. Arregalou de todo os olhos quando se deu conta de que se tratava do diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore! Foi quando ela viu através do reflexo a figura de seu padrasto, fitando-a com os olhos bondosos e com as mãos nos bolsos.
- Olá, Emma. - começou o senhor, que ornava na ponta do nariz um óculos de lentes redondas e sem hastes de pendurar nas orelhas. - Procurando sua mãe?
A moça se espantou com a sugestão certeira do homem. Ergueu as sobrancelhas e fitou o braço da poltrona ao lado.
- Ah, sim... é, estou procurando por ela... - respondeu, incerta. - Aquele ali por acaso é Dumbledore caminhando com alguém nos seus jardins?
- É, é sim. Que boa visão você tem! - brincou Cicerus, como se a situação fosse corriqueira. - A criatura ao lado dele, toda encapuzada, é a sua mãe.
Emma permaneceu incrédula por alguns bons segundos até voltar a falar.
- E eles são tão bons amigos assim? Pra ele vir visitá-la até aqui, na Suíça, pra andar pelos jardins por aí?
- Basicamente sim. Madeleine e ele mantêm essa amizade desde os tempos em que ela mesma estudou na sua escola. Sabe, você ainda é muito nova para saber de certos detalhes, mas posso adiantar que sua mãe tem um espírito muito mais velho que o corpo dela aparenta... talvez seja isso que aproximou os dois, não sei dizer ao certo...
- Ah, entendo... e... - murmurou ela, antes de ser interrompida.
- Não, os Fudge não estão em casa, eles estão em Londres, junto da família paterna de David. Talvez eles voltem depois das aulas terem começado, David explicará melhor quando vocês chegarem a Hogwarts... E por falar em Hogwarts, Dumbledore e Madeleine não estão conversando trivialidades, como pode parecer, mas sim a sua escolta para a estação de trem; afinal, seu irmão é o acerto de contas, mas não quer dizer que pode fazer o que bem entender no nome da Ordem da Fênix, não é mesmo?
Emma continuou ouvindo em silêncio, e apenas balançou a cabeça em afirmação. Então os boatos eram verdade. O Profeta vivia publicando artigos acerca de sua mãe e de sua amizade com o velho diretor, mas ela nunca presenciara os dois em plena conversa, eram muito mais discretos que isso para se comunicarem. Talvez a região de Berna fosse segura o bastante, talvez o caso fosse urgente; ela não sabia. Ainda sem dizer nada, Emma retornou ao seu quarto, para continuar a arrumar as malas: amanhã iria para Hogwarts.
Antes de ir dormir, a herdeira se despediu de todos os familiares, pois levantaria muito antes que qualquer um - talvez não Cicerus - acordasse; de manhã cedo, impressionou-se ao ver o transporte vermelho de seu gato ao lado de suas malas. Ficou ainda mais impressionada quando verificou o transporte e Peseta estava lá dentro, dormindo enrolado no canto, como uma bolinha. Ouviu alguém se aproximando do quarto, era Richard.
- Demorei mas trouxe o bichano. Foi difícil achá-lo, mas o que eu não faço por essa família? - brincou ele, vestido com uma casaca marrom opaca, e no bolso do peito via-se um maço de cigarros. - Vamos que eu ainda tenho que entregar uma coisa pro Malgoch.
Nessa 'entrega', Richard demorara demais na conversa, e o resultado foi um belo atraso na estação King's Cross; Emma correu com desespero pela plataforma, pedindo que por favor algum funcionário a ajudasse. Ela até conseguiu o que queria, mas não da maneira mais agradável: um dos homens de uniforme praticamente a arremessou pra dentro do vagão de malote e tudo, incluindo o transporte do gatinho. Pelo menos iria para o castelo sem falta.
A moça caminhou alguns passos ainda atordoada, cansada por ter de carregar aquelas malas todas, quando topou com alguns pares de sapatos lustrosos conhecidos...
- Olá, Emma! - cumprimentou uma voz bonita, e o dono dela parecia feliz. - Quanto tempo! Como foram as férias? - era James Potter, o Pegadotter, mais charmoso e encantador que nunca, abraçado à namorada Lily, que sorria, e as bochechas estavam avermelhadas.
- Ah, foram ótimas, obrigada. - respondeu a loura, um pouco acanhada. Logo atrás do moço de óculos vinha o baixinho do Pettigrew, que sorria com os dentes grandes. - E as de vocês?
- Tudo uma grande maravilha, obrigado. - interrompeu Sirius, outro que vinha muito charmoso em seu jaleco escuro e óculos escuros. - Você está mais bonita que nunca, Emma Ducotterd. - tirou os óculos e pôde fitá-la de cima a baixo.
- Digamos que avancei a tolerância de atraso do trem e o funcionário não ficou muito feliz em me ver... - disse ela, ajeitando os cabelos e olhando para o chão. Atrás dos sapatos marrons de Sirius, ela pôde fitar as pontas dos pés de Remus, em sapatos tão bonitos quanto o dono. Tentou não olhar para o rosto dele.
- E você... já foi à sua cabine? - indagou Black, manuseando como brinquedo o óculos estilo blues.
- Bom, não... estou tentando chegar lá... - e a moça começou a se agitar por causa do peso das malas, Lily até fez a gentileza de ajudá-la com a caixa de Peseta.
- Hum... - murmurou Sirius, que olhou em direção aos pés de Emma, e quando o fez abriu bem os olhos azuis. - O funcionário não te ajudou com a bagagem?! Como assim? Você está carregando esse peso todo sozinha?! Mas que absurdo! - James olhou para o teto: sabia o que o amigo pretendia. Quando o assunto envolvia Emma e seu universo, sabia sempre que Sirius pensava em Domenica. Lily pareceu compreender, e ouviu-se uma risada abafada de Peter.
- Aparentemente eu sou um estorvo para a população de funcionários da estação, Sirius. - ironizou a corvinal, erguendo os ombros. Peseta deu um miado, e Sirius resolveu agir.
- Me dá esse malão. - ordenou o moreno, atropelando o casal de amigos e erguendo a enorme mala no ombro esquerdo. - Agora me dá a sua bolsa de mão. - Emma entregou um pouco receosa. - Você leva... esse... gato. - e ergueu uma sobrancelha, olhando feio para o pobre felino.
Emma viu o rapaz seguir o corredor sem hesitar e o seguiu, desviando com cuidado dos Marotos; foi quando levantou os olhos numa fração de segundo e se viu frente a frente com o monitor Remus, que manuseava a franja de seu cachecol bicolor. Pareceu sentir o Inverno e o Verão passarem por seu corpo numa viagem intensa e rápida, e só conseguiu disfarçar o embaraço porque deu uma risada forçada e correu atrás de um desenfreado Sirius Black com seus malotes.
A herdeira foi na frente, procurando pela cabine dos amigos corvinais, que estavam a alguns vagões de distância. À direita do trem, Nadya, Rose, Daniel, Angelo, David e Joey conversaram animadamente, espremidos em dois bancos. Quando viram Emma, quase todos levantaram ao mesmo tempo, causando certo alvoroço e muitas risadas. Sirius olhou a cena com rapidez e franziu o cenho como uma criança descontente ao ver que seu doce preferido não estava na vitrine: onde estava Domenica? Emma tocou o peitoral do rapaz, como se o chamasse à realidade, porém não obteve resposta. Entrou na cabine para deixar Peseta, quando viu que o grifinório olhava furioso para o outro lado do corredor.
- Sirius, obrigada, foi muita gentileza! - disse ela, com sinceridade. Abriu os braços para abraçá-lo, mas teve de ser rápida para que o malão não caísse em sua cabeça: Sirius o desceu com brusquidão dos ombros e entregou a outra bolsa com igual rispidez.
- De nada, disponha. - retrucou o moço, não olhando nos olhos de Emma, que ficou ali, aturdida, e voltou em direção dos amigos. Após alguns segundos, para absorver todo o movimento daqueles últimos cento e vinte segundos, ela se voltou para a cabine e finalmente se sentou entre os amigos, para começar de vez a viagem.
Os Marotos pareciam bem acomodados; pela primeira vez, Lily iria a Hogwarts acompanhada de um namorado, e mais ainda: acompanhada de James, o irritante grifinório que lhe conquistara o coração de vez. Peter agitava os pés, que não alcançavam o chão conforme ele estava com as costas no banco, e olhava em silêncio para a neve lá fora; e Remus lia mais um artigo sobre a caça predatória aos vampiros no norte de Leeds, no Profeta Diário, quando Sirius apareceu na porta da cabine, com as mãos na cintura. Remus riu, mas tentou disfarçar. James desviou a atenção de Lily para encarar o amigo ali no corredor.
- Sabem o que eu acabei de ver?! - começou o Black, com o dedo em riste e cara de lunático.
- Não faço idéia, mas para você estar assim, com essa cara de psicopata, coisa boa não é. E espero que não seja nada que morda ou espirre ácido. - disse o monitor, voltando à leitura.
- Sinceramente, essa pergunta tem muitas respostas. Você pode ter visto a nós, por exemplo. Ou um doce apetitoso no carrinho... - disse James, com as sobrancelhas erguidas.
Lily riu, escondendo o rosto no braço do namorado.
- A Domenica. A Domenica, saindo com aquele... aquele KHORTZ! - berrou Sirius, gesticulando com um cigarro entre os dedos. E o tragou. Parecia determinado a não entrar nas provocações dos outros Marotos.
- Aquele lufo que tem o braço do tamanho da minha cabeça? - indagou James, arregalando os olhos castanhos.
- ESSE MESMO! - exclamou o outro moreno, apontando para o amigo.
- E daí? - perguntou Remus, encarando Sirius com certo desdém.
- Por favor, senhor. - começou um homem de bigode, que apareceu no corredor. Era um funcionário baixinho e magro. - Poderia apagar este cigarro e sentar-se? É proibido viajar em pé E fumar neste veículo. Sirius não respondeu, apenas entrou na cabine, onde o homem fechou a porta.
- E daí que se ela saiu de novo com ele é porque gostou! - exclamou Sirius.
- Você está com a Nathaly quase dois meses e ela não disse nada, Almofas! - disse James, tirando os óculos para limpá-los.
- Não interessa! Ela NÃO PODE fazer isso comigo! - gritou o outro, dando um trago violento no cigarro, que ele não apagou, claro.
- Pensa pelo outro lado: ela saiu várias vezes com você... - observou Remus.
- É, ela saiu... - disse Peter, de repente. - Mas pediu pra você desgrudar... - e voltou a olhar a neve.
A porta da cabine se abriu.
- Senhor, com sua licença. - o funcionário apareceu e empurro Sirius pelo braço até o lado vazio do banco. Em seguida, alvejou o cigarro do rapaz com a varinha. Por incrível que pareça, saiu em silêncio, sem nenhuma cerimônia.
- Ah, como minha vida é difícil! Ninguém me entende! - reclamou o Black, abrindo os braços e erguendo os ombros.
- Ah, o drama... - brincou James, sorrindo para a namorada.
- Vou no banheiro. - disse Remus subitamente, e levantando com rapidez.
Ao longo do corredor, o monitor não parou no banheiro. Seguiu-o por completo, até chegar a um carrinho de doces. Emma estava lá, comprando algumas guloseimas. Notou que ela escolhera uma caixa de caramelos de moranga, que ele sabia bem o quanto ela gostava.
- Emma? - chamou ele, um pouco retido graças às outras pessoas que rodeavam o carrinho.
- ...Remus? - indagou a moça, assustada pela surpresa. Quase a caixa de caramelos foi ao chão. Ela virou-se para o grifinório e ajeitou uma madeixa solta atrás da orelha.
- Er... isso aqui é para você. - murmurou o jovem, tirando um envelope vermelho do bolso e entregando-o à moça. - Com licença. - Remus deu as costas para Emma, que pegou o papel e o olhou com muita desconfiança: era um envelope vermelho-escuro, com seu nome atrás escrito em dourado e selado com um desenho caprichado de um leão rugindo. Suas moedas caíram no chão, o trem deu duas freadas consideráveis, um sonserino lhe pediu passagem, mas ela não conseguiu se mexer, só respirar.














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