Do quarto, enquanto esperava, Remus não falou com o amigo Rabicho; ficou meditando o quanto havia sido fraco por não ter contado à Emma nem aos Marotos sobre sua paixão. Quão ingênuo havia sido durante todo esse tempo - não confiara em seu impulso grifinório e somente no último mês de aulas é que resolvera abrir seu coração. No entanto, eles haviam sido tão compreensivos, e até reagiram positivamente à notícia. Por mais que James tivesse namorado a garota, por mais que tudo tivesse dado errado, eles estavam a postos para ampará-lo e auxiliá-lo da maneira que podiam. Remus suspirou, esfregando o rosto com força e arrumando os cabelos. Tomou um baita susto quando Sirius empoleirou na janela.
- Vamos! A situação é perfeita! - exclamou Sirius, que não conseguia parar de sorrir.
- Quê? - indagou Remus, desnorteado.
- Ela está no jardim, Aluado, sozinha! - completou Pontas, fazendo com que Peter desse um soco no ar de alegria.
- Esperem, vou pegar minha vassoura... - Lupin levantou-se, mas foi imediatamente impedido por Pettigrew.
- Você não precisa de vassoura, eles te levam! - disse o baixinho, empurrando-o em direção à janela.
- Me dá o seu braço. - disse Pontas, que pegou o amigo por um dos pulsos. - Sirius te leva do outro lado.
A cena, pra variar, era estranha, bem ao estilo Marotos: Lupin estava sendo carregado pelos amigos pelos pulsos, e foi levado assim até onde eles haviam visto Emma, à beirada de uma árvore coposa. Ele sacudia as pernas de vez em quando, temeroso de cair. Mas ele sabia que isso não ia acontecer. Bem devagarinho, os dois deixaram o amigo à uma distância segura, e resolveram acompanhar tudo de perto da copa da outra árvore, escondidos no meio das folhas, quietos como caçadores.
Remus tremia muito, e sua garganta embargou; aproximou-se dela, que estava sozinha, acompanhada apenas de um livro de capa azul. Os cabelos contornavam os ombros de maneira dócil, e o rapaz achou que ela parecia uma pintura desprovida de moldura. Ao ouvir os passos dele, Emma olhou em volta e quase desmaiou ao ver que era seu querido monitor da Grifinória. Ela levantou-se com pressa e largou o livro no chão. (algo que só faria porque era uma questão desse calibre)
- Remus...? - chamou ela, de cenho franzido, descrente de tal situação. Raramente ele vinha ao seu encontro sozinho.
- Emma. - disse ele, primeiro encarando os pés dela. - Deixe-me falar, por favor.
- Aconteceu alguma coisa?! - indagou a moça, preocupada com a expressão mórbida que ele trazia no rosto.
- Não. Quer dizer, sim... Mas deixe que eu termine, sim? Apenas me ouça. - Remus parecia realmente decidido a não sair de Hogwarts sem que Emma soubesse de seus sentimentos. - Eu... - por um momento vacilou, e quis retroceder ao castelo, mas a lembrança de que Sirius e James estavam na árvore de trás lhe deu forças. Qualquer coisa eles o tirariam dali num raio. - ...eu gosto de você desde os onze anos. - continuou, temendo encará-la nos olhos, e quando o fez, viu uma Ducotterd mortificada, com os olhos azuis arregalados como duas grandes safiras. - Não, eu... eu te AMO desde os onze anos de idade. Desde que eu entrei nesse colégio, vi em você uma luz que eu nunca pensei encontrar na minha vida... e você sabe dos meus motivos... - Emma permaneceu estática e boquiaberta. - Eu amei você por todos esse anos a fio, calado, sofrendo com a minha própria escolha, porque você sempre me pareceu inalcançável... Eu sei que não é, enfim, pois vi meu melhor amigo te namorar na minha frente... mas enfim. Não quis deixar Hogwarts sem te contar isso. Enfim... - e fez menção de virar-se. Foi quando sentiu a pequenina mão dela tocar-lhe o ombro.
- Parece que o destino resolveu me dar um tapa na cara. - disse ela, para a surpresa do rapaz. Ele imaginou que ela o humilharia com sutilezas, como fazia com outros pretendentes que não queria. - Porque alguém finalmente resolveu me entender. - Remus arregalou os olhos, assim como James e Sirius, em cima da árvore. - Remus, eu... - Emma estava prestes a explodir em lágrimas. - Eu pensei ter te amado antes. - faltou para Lupin que alguém lhe segurasse para não cair. COMO É QUE É? - Eu pensei ter sido a única a ter enxergado um futuro na minha relação com você, e... EU fui sempre apaixonada por você. Eu... - uma lágrima escorreu no rosto rosado. - ...passei anos te procurando com os olhos. Vendo como você sumia todo mês, como estava sempre à sombra dos seus amigos trapalhões - Sirius franziu as sobrancelhas. - e como um anjo, cuidando deles, zelando pelas suas vidas... - Nada mais impediu um beijo sôfrego, apertado, apaixonado, entre os dois. Emma agarrou o pescoço de Lupin como se fosse pregá-lo a si mesma, e ele apertou a cintura da moça com força, auxiliando no abraço.
Emma separou o beijo e reparou como o rosto do amado estava vermelho - de emoção, de choro, de vida - e o pegou entre as mãos para beijar cada pedacinho que sua boca pôde alcançar. Remus a trouxe para perto da raiz da árvore em que previamente ela estivera deitada e fez com que ela se debruçasse nele, para beijar-lhe o quanto fosse para curar esse maldito atraso que ambos impuseram durante quase uma década.
- Por quê? Por que eu fui idiota o bastante para nunca dizer nada? - perguntou ela mais a si mesma que a Lupin. - Eu nunca entendi... - mais lágrimas escorreram pelo belo rosto, e o moço fez questão de enxugá-las com beijos.
- Eu te entendo. - respondeu o licântropo. - Eu entendo a sua falta de coragem. Éramos invisivelmente acessíveis e notoriamente tímidos. - Emma riu, mas não evitou soluçar. - Não chora. Nunca gostei de te ver chorar. - ela sorriu e ele pode deleitar-se naquele pedaço de luz. Um pingo de chuva caiu sobre o nariz da loira, e Remus franziu o cenho. Uma chuva rápida começava para lavar os sofrimentos deles. Deles e do mundo. - Vem, vamos para dentro. - fez um movimento para levantar-se, mas ela não se mexeu.
- Não preciso de proteção nenhuma, agora que estou perto de você... - Emma abraçou-se forte ao tronco de Lupin, que fez questão de segurá-la com firmeza. A chuva disfarçou as próprias lágrimas.
- O que você quiser... - murmurou ele ao pé do ouvido da jovem. - O que você quiser...
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Permaneceram ali, abraçados, em meio à chuva. Foi como se a água ajudasse a sorver as culpas e os hiatos em seus passados, levasse embora todas as lágrimas vertidas e sufocasse o temor do futuro. O casal ficou enroscado no jardim, escondido da vista de qualquer ser humano por uma graciosa árvore - quando resolveram levantar-se, beijaram-se mais uma vez na chuva.
Remus pegou a moça pela mão e a trouxe correndo para uma das entradas laterais do castelo. Ali puderam apertar as roupas e escorrer um pouco da água. A magia não importava agora... - como se eles estivessem pensando em feitiços nesse momento. - O monitor abraçou a amada pela cintura e sentiu que ela tinha a altura exata para ficar enlaçada em seu pescoço sem ter de ficar nas pontas dos pés. Mal podiam acreditar que num bendito dia de junho é que declarariam assim abertamente que se amavam, e não pretendiam nunca separar-se.
Ao vislumbrar o cenário, Emma sorriu. Abraçou o rapaz e em seguida, como num único minuto de racionalidade, perguntou:
- Remus...?
- Sim? - perguntou ele, enebriado pelo momento e pela situação.
- O que diabos os seus amigos estão fazendo empoleirados naquela árvore?
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